quinta-feira, 26 de março de 2015

Insegurança reúne 250 pessoas

O Conselho Comunitário de Segurança do bairro Menino Deus, vinculado à secretaria municipal de Segurança e Direitos Humanos, existe há dez anos. Mas a reunião da noite de 25/03, nas dependências do Grêmio Náutico Gaúcho, na avenida Praia de Belas, foi, sem dúvida, a mais concorrida. Segundo os organizadores, 250 pessoas assinaram presença. Não é para menos. Nos últimos meses, a insegurança, o crime, é quem domina as ruas do bairro, da manhã à calada da noite. São assaltos a lotações, assaltos a pedestres, arrombamentos e roubo de veículos, arrombamentos de estabelecimentos comerciais, assaltos a estabelecimentos comerciais. Nunca o Brasil teve tanta gente trabalhando, orgulha-se o governo federal (embora as demissões já tenham começado em todo o país), e nunca teve tanta gente na criminalidade. Em geral, as autoridades vinham discursando que a culpa é das vítimas, por prosperarem, melhorarem de vida, adquirem seu automóvel, etc. Mas esta tônica infeliz, felizmente, não foi empregada na noite de 25/03/15, quarta-feira.
Segundo organização, 250 se fizeram presentes no GNG
Major Mohr, do 1o BPM representou a Brigada Militar
 A reunião foi conduzida com a devida técnica básica do assembleismo, consistindo de uma pauta a ser cumprida, tempo às manifestações, inscrições para falar, votação das decisões tomadas ao final para futuro encaminhamento. O que não impediu um pequeno incidente, quando a presidente da Assamed, Oleti Gomes, falava e foi abruptamente interrompida. Todos os presentes se manifestaram a seu favor e ela ganhou um tempo adicional.

A assembléia, ao final, quase às 21h00 (iniciara às 19h00), decidiu pela condução de um abaixo-assinado a circular em todo o bairro para depois ser levado às autoridades; e criar um grupo de trabalho para a realização de uma futura audiência pública, da população com o governo, para tratar do tema. Segundo a coordenadora do encontro, Nelnie Lorenzoni, em vista de o Menino Deus ter cerca de 30 mil habitantes, o abaixo-assinado deve incluir seis mil nomes. O redator aqui especula que deve ser algum critério criado nas esferas da burocracia estatal para aceitar a voz da comunidade. O grupo de trabalho formou-se espontaneamente por 25 pessoas, aprovadas pelos presentes. Entre eles, residentes, profissionais liberais, comerciantes e prestadores de serviço. Todos se comunicam por e-mail ou pelo whatsapp.

Falência do Estado? - E por falar em whatsapp, a ferramenta usada por quem tem smartphone, foi mencionada diversas vezes, como um instrumento que já é usado no Menino Deus e em outras comunidades para se defender do crime. Os comentários gerais sobre ela é que as pessoas se comunicando conseguem se avisar e alertar umas às outras sobre alguma ocorrência. O telefone da segurança, o 190, recebeu críticas na sua operação. Já existe um grupo de comerciantes da Getúlio Vargas e arredores que criou um grupo, após muitos deles serem vítimas de assalto a mão armada, ou arrombamentos, em seus estabelecimentos.

Moradores de rua - Gilson Rosa, residente à rua Grão-Pará, lembrou de um salão de beleza ali ter sido arrombado três vezes, durante a noite. "No dia seguinte, todos os flanelinhas simplesmente sumiam". Oleti Gomes, presidente da Assamed, lembrou que entre os ditos moradores de rua há criminosos e assaltantes. "A BM diz que não pode abordá-los, mas nós podemos ser abordados por eles. Exigimos que a BM fale com o governador, se o crime seguir assim, vamos para a frente do Palácio Piratini." Fortes aplausos seguiram sua manifestação. Ela também criticou uma velha justificativa da prefeitura para o morador de rua não ir para os albergues ("eles não querem") o que também é fato, mas, se um sujeito passa a noite em um albergue hoje, só poderá voltar daqui a três dias. "Eles deixam seus poucos pertences na rua, os albergues não oferecem o que eles precisam. Eles querem casa, muitos são doentes mentais, que os parentes não querem mais. Mas entre eles estão os criminosos". Aqui cumpre lembrar uma decisão mundial - coisas da perigosíssima ONU - repetida em cada país, no RS também, que foi a redução dos leitos psiquiátricos (a Assembléia Legislativa do Estado o aprovou no início da década de 90). Alguém, lá em algum lugar, achou que deveria mudar o atendimento ao doente mental e deram a fechar leitos pelo mundo. Agora rolam nas ruas, foram desamparados pelo Estado. Enquanto isso, os integrantes do topo da cadeia alimentar dos três poderes dê-lhe a se aumentarem benefícios e salários. E o povo lá, vendo. Agora, cansou, parece. João Hélvio, secretário-adjunto de segurança do Município, disse que, quanto aos moradores de rua, o poder público está "de mãos atadas, nada podemos fazer, apenas se o morador de rua estiver em situação de risco". Gargalhadas gerais frente a tal situação absurda da lei. Mas ninguém ajuda quem reside ou trabalha a limpar a frente de casas, condomínios e lojas urinados e defecados pelos protegidos pela burocracia estatal. Em alguns, diariamente é preciso limpar para poder trabalhar, entrar e sair.

Crime recorde - O major Mohr, vice-comandante do 1o BPM, que atende Porto Alegre de ao sul da avenida Ipiranga, até a Restinga, disse que, em 28 anos de Brigada Militar, nunca viu a situação do crime como hoje. Segundo ele, chegamos a tal triste cúmulo devido a "décadas de medidas pró impunidade". Ele relatou alguns casos de criminosos detidos, julgados e presos, que, pouco depois, eram soltos, desmoralizando o trabalho da polícia e reproduzindo a insegurança na qual vivemos. Segundo ele, o seu batalhão é o que mais prende em Porto Alegre. São seis detenções por dia. "A BM atua", garantiu. Foi muito aplaudido ao citar a impunidade e ao fato de 42% dos detidos já serem criminosos que passaram pelo sistema prisional e foram soltos "muito cedo". Foi intensamente aplaudido ao dizer que "como os senhores odeio o vagabundo, o ladrão, se eu pudesse eu prenderia todos". Já o representante da 2a DP, Cládio Wohlfahry, relatou o êxito da equipe da delegacia em deter e desmanchar uma quadrilha que atuava assaltando as lotações. Ele também foi muito aplaudido ao dizer que sentia falta do Ministério Público, do Judiciário, "pois também respondem pela segurança e também devem dar satisfação à comunidade". Ele lembrou a redução de verbas do governo federal para investimento na segurança pública, e também no RS. Ao pensar nisso, acrescenta-se aqui que a máquina pública está falida, quebrada, paga salários, aposentadorias e pensões, não dando nem para isso o que arrecada, e os cidadãos, muitos deles servidores públicos também, que se danem em um modelo de Estado que chegou à inviabilidade. Aumentar tributos, nem pensar, pois a sociedade está por eles sufocada. Só a União o faz e azar de todos.

Inscrições - A proprietária de um café na Getúlio Vargas manifestou-se intensamente, recebendo fortíssimos aplausos. Ela disse que, desde a Copa, a BM bota no Menino Deus soldados do Interior, que não conhecem o que é a Getúlio Vargas, que ficam no seu café, usando internet de graça, tomando café e que nada fazem, justificando que o salário é ruim. Um senhor começou sua fala reclamando, que "chega de lenga-lenga, tragam projetos". Ele também lembrou que Porto Alegre é uma das cidades com mais homicídios do mundo, se comparado à população. "Governador e prefeito não se importam com a segurança." Aplausos.

Fase - Um dos inscritos, representando muitos dos presentes, que por sua vez representavam tantos outros mais, reclamou da futura instalação da Fase na rua Silveiro, uma medida do governo feita sem ouvir a comunidade. Enquanto isso, a Fase tem 70 hectares na Padre Cacique. O redator lembra que a área da Fase é, há muito, ambicionada pelo mercado imobiliário. Talvez venha alguma novidade.

Há muito mais, mas isso já deu uma boa idéia, não? A próxima reunião será no dia 28/04, uma terça-feira, foi aprovado pelos presentes. O local será informado por e-mail a todos.

Censura - Quando Nei Gomes, tesoureiro da Assamed, pegou sua câmara para filmar a reunião, um integrante da mesa lembrou de uma decisão do Conselho, em janeiro, de não ser permitido filmar as suas reuniões. Ora, ora. Não existe autoridade neste país que possa impedir a filmagem, o registro, de uma reunião pública, ainda mais em benefício do público. E se aparecesse uma equipe de TV de um telejornal local, como seriam recebidos pela coordenação? Censuradamente? Ou ...


Um comentário:

  1. Sim, muito boa e necessária a mobilização dos moradores, até porque a vagabundagem já está bem mobilizada faz tempo. Sobre o salão de beleza mencionado, houve uma nova tentativa de arrombamento na mesma noite da reunião, mas a vigilância privada chegou rápido. Para não perderem a viagem foram arrombar outro nas proximidades. Em resumo: tá feia a bocada.

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